Eu, Frida

 

frida

A fotografia faz parte da minha vida, é uma lente a mais na minha retina, o alto grau que corrige  minha miopia. Atrás da lente da minha câmera, eu enxergo melhor tudo ao meu redor, mas não só isso, eu me vejo melhor também. A fotografia foi um olhar certeiro que eu lancei sob mim.  Quando comecei a tirar fotos de mim mesma, eu passei a me olhar de verdade, com o mesmo espanto de uma das personagens da Clarice Lispector. Eu me olhei no espelho e me espantei de ser eu: “como sou delicada e forte.”  Me inaugurei. Frida Kahlo pintou vários autorretratos e se representou como ela mesma se enxergava, sem fantasias ou idealizações.  Eu também me pintei, o rosto, e fiz meus retratos. Cada pintura, uma (re)descoberta.  Um olhar sem recriminações, de dentro pra fora, um olho no olho de quem se encara nas lentes da máquina fotográfica sem medo de se deixar revelar.  É um perto demais, é um zoom de 50 vezes.

Cris Menezes

O que esperar deste blog

Um dia decidi que ia viajar. Digitei no Google: lugares para viajar sozinha no Brasil e apareceu “Canoa quebrada”. Reservei hotel e comprei as passagens. Em poucos meses eu estava sozinha em Fortaleza pela primeira vez na vida. Não parei mais. Nas primeiras viagens, sentia um aperto no coração ainda no aeroporto: um misto de “quero ir”, mas “estou com medo.” Na segunda viagem, já comecei a me hospedar em hostel (albergue da juventude): um cama num quarto coletivo e uma cidade inteira para conhecer. Hoje os hostels  são minha casa na estrada.

Não é fácil viajar sozinha. Antes de ir, eu desisto várias vezes, reservo hospedagem e cancelo. Reservo e cancelo. Sair de casa para qualquer lugar do mundo é sempre arriscado. E vamos combinar que o Brasil não é, nem de longe, um dos países mais seguros para viajar. Quando fui para a Chapada dos Veadeiros, mandei uma mensagem para meus pais dizendo que o quarto tinha uma vista linda. Minha mãe  respondeu algo como: “Fique no quarto só observando. É mais seguro.” Eu ri muito. Seguro é, mas que graça tem?

Nestas viagens tenho conversado com pessoas desconhecidas mais do que costumo conversar na minha própria cidade. Se você já é adulto, pode ignorar aquele conselho de mãe de não falar com estranhos. Viajando, conheci os estranhos mais legais do mundo. No hostel, um sorriso, um olá, nome e de onde é, e já encontramos companhia para conhecer a cidade. Aprendi a ficar só comigo mesma, mas recebo com muita gratidão as pessoas que encontro pelo caminho. Conheci mulheres empoderadas que me inspiraram a continuar viajando. Foram as melhores companheiras de viagens. Parcerias fortes construídas nas pontes áreas do Brasil.

Então é por isso que não canso de repetir: o maior ganho de viajar sozinha e se hospedar em hostel são os amigos que fazemos lá. É  esta conexão com as pessoas que nem conheceríamos se não tivemos a ousadia de sair de casa com uma mochila nas costas e muitos sonhos na cabeça.  É como se nosso mundinho se expandisse quando, além de lugares, conhecemos pessoas diferentes, outras culturas, outros modos de enxergar a vida. Viajar sozinha é um mergulho para dentro de si mesma, uma jornada interior, com grandes escaladas, entre picos e vales, uma montanha russa de emoções, um espantar-se diário consigo mesma. Viajar é mais que se deslocar de um ponto a outro. É  se desinstalar de um lugar confortável para um lugar desconhecido. É sair da zona de conforto, da rotina, de si mesma.

O que pretendo com este blog é inspirar outras mulheres a pegarem uma mochila e se aventurarem sozinhas pelo mundo, com muita autoconfiança. Isso é empoderamento, gente!   Além de escrever dicas de destinos, trajetos, rotas, hospedagens, quero contar as histórias das viagem e publicar fotos, todos despretensiosas porque não sou fotógrafa profissional. Vamos conversar como se estivéssemos  numa pracinha, em alguma cidade histórica,  sobre lugares incríveis e sobre  como podemos revolucionar nossa própria vida quando  decidimos sair de nós mesmas para percorrer longas distâncias por causa de uma bela paisagem na janela ao acordar, uma cachoeira, o mar, uma cidade histórica, um deserto, um outro país…e ainda conhecer outros viajantes.

Eu preciso viajar…não como fuga. Apenas ir. E isso é urgente. Me acompanhe nesta viagem. Me dê a sua mão que ainda tenho medo de ir só.

Cristina Menezes